Afrodescendentes no Itaperiú


Por Elis de Sisti Bernardes


A avassaladora escravidão negra ocupou toda a parte da costa brasileira. O litoral catarinense apresenta indícios da presença africana desde o início de seu povoamento.

De 1500 até a extinção do tráfico negreiro, em 1850, estima-se que tenham entrado no Brasil cerca de quatro milhões de escravos africanos. Considerando toda a América esse número chega a doze milhões.



1. Da África para o Brasil

Muitos africanos eram feitos prisioneiros em conflitos entre tribos e sob condição escrava eram trocados por mercadorias. Os traficantes de escravos realizavam expedições de captura no interior do continente africano e os escravos eram trazidos em marcha forçada para o litoral africano, onde aguardavam para serem comercializados em espécies de fortalezas denominadas de portos de trato ou feitorias.

Africanos capturados como escravos sendo levados ao litoral para serem exportados

Da África, os escravos eram transportados para o Brasil em quatro grandes rotas de tráfico negreiro: da Guiné, da Mina, da Angola e de Moçambique.

Principais rotas do tráfico de escravos

Além dos próprios africanos, portugueses, ingleses, franceses, holandeses, belgas, italianos, espanhóis, dinamarqueses, suecos, americanos, brasileiros e muitos outros, ganhavam dinheiro vendendo pessoas. Os preços dos escravos variavam de acordo com o sexo, a idade e as condições físicas.

A travessia do oceano Atlântico era feita a bordo dos chamados navios negreiros. O tempo de viagem variava em torno de 35 a 70 dias. Transportados nos porões, as condições da viagem eram péssimas. Cada navio, levava em média quatrocentos africanos. Homens, mulheres e crianças, amontoados e acorrentados. Mal alimentados, num ambiente apertado, quente, escuro, abafado e malcheiroso, as diversas doenças e mortes eram inevitáveis. O alto índice de mortalidade fez com que os navios negreiros fossem também chamados de tumbeiros, em alusão às tumbas.

Navio negreiro retratado por Rugendas, 1830.

Os negros trazidos ao Brasil sob o regime de escravidão pertenciam a dois grandes grupos africanos: sudaneses e bantos. Cada um desses grupos representava determinada região do continente africano e tinha um destino específico no desenrolar do comércio escravo.

Principais rotas de tráfico de escravos da África

Os sudaneses tinham origem na região que vai da Costa do Marfim até a Nigéria e seu destino geralmente era o Nordeste do Brasil, principalmente na Bahia, onde foram predominantes. Também haviam os guineanos-sudaneses muçulmanos, chamados no Brasil de "malês", sendo que a diferença entre estes estava no fato de serem convertidos ao islamismo. Os escravos sudaneses dividiam-se em: nagôs (iorubás), jejes, fanti-axântis; e os muçulmanos: fulas, mandingas, haussás e tapas (nupes). O porto de embarque de escravos mais movimentado dessa região foi a feitoria de São Jorge da Mina, fato que fez com que povos de diversas tribos africanas, muçulmanos ou não, passassem a ser identificados no Brasil apenas de "mina", o que descartou dos registros a verdadeira origem de muitos escravos dessa região.

Já os bantos, grupo mais numeroso, tinha origem no centro-sul do continente africano, no que hoje representa Angola, Zaire e Moçambique. Banto é um tronco linguístico, ou seja, é uma língua que deu origem a diversas outras línguas africanas e são mais de 400 grupos étnicos. Embora fossem muitas as denominações utilizadas para denominar os diferentes grupos, eles dividiam-se basicamente em dois subgrupos: angola-congoleses e moçambiques, conforme a rota do tráfico escravo a que eram submetidos. Tinham como destino algumas cidades do Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo.

Escravos provenientes de Benguela, Luanda, Congo e Monjolo retratados por Rugendas em 1830.

Escravos provenientes de Cabinda, Quiloa, Rebolo e Mina retratados por Rugendas em 1830.

Cada um desses subgrupos possuía diferentes características físicas e comportamentais, diferentes formas de se vestir, línguas e crenças.

Os africanos capturados como escravos passavam por uma cerimônia de batismo coletivo na igreja católica, onde recebiam um nome cristão português. A troca de nomes representava também a tentativa de anulação da identidade cultural africana. Conforme a exigência do império, os escravos não poderiam ficar alheios à fé do seu senhor, devendo seguir a religião católica. Forçados, foi o que a grande maioria fez. No ano de 1872, oficialmente, toda a população da Freguesia de Barra Velha era católica. Entretanto, muitos elementos da fé africana persistiram e foram introduzidos na cultura brasileira e regional.

Ao novo nome recebido no batismo, acompanhava também a designação do grupo africano a que o escravo fazia parte, como por exemplo: Antonio Mina, Isabel Congo, ou Manoel Cabinda. Essa designação era uma forma utilizada para classificar e organizar os escravos, podendo com isso escolher os africanos apropriados para cada tipo de trabalho, ou misturar escravos que falassem diferentes línguas, evitando a organização de grupos rebeldes, ou evitando conflitos entre grupos inimigos.

Porém, o uso da designação do grupo africano não era utilizado nos filhos de escravos nascidos no Brasil. Estes eram denominados de crioulo, designação bastante presente nos registros, assim como preto, mulato e pardo. Todo o filho de mulher escrava nascia escravo. O escravo não tinha sobrenome e nos registros eram sempre associados ao nome do seu proprietário, como por exemplo: "Maria preta escrava de Fulano de Tal".

Os africanos eram adquiridos pelos chamados "senhores de escravos", ou pelo próprio governo. No Brasil, eram negociados nos mercados de escravos, e utilizados em sua maioria, na lavoura, ou em tarefas domésticas, e levados para o trabalho escravo em engenhos, minas ou vilas.

Mercado de escravos retratado por Rugendas em 1830

Haviam os escravos chamados de boçais e os ladinos. Os boçais, geralmente recém-chegados da África, eram utilizados no serviço pesado, na lida da lavoura, na mineração, ou nos engenhos. Os escravos ladinos, já aculturados com os brasileiros, entendiam e falavam o português, ou possuíam uma habilidade especial na realização das tarefas domésticas, ou exerciam atividades especializadas, ou de ganho. Os escravos domésticos trabalhavam nas casas, enquanto os escravos de ganho administravam pequenos comércios, praticavam artesanato, ou prestavam pequenos serviços com retorno financeiro para seus senhores.



2. A presença africana no litoral norte catarinense

Em Santa Catarina, assim como em todo o Brasil, predominaram os africanos bantos, distribuídos pelo Sul após chegarem ao Porto do Rio de Janeiro.

Desembarque de escravos no Porto do Rio de Janeiro, Rugendas, 1830.

No litoral norte catarinense, nos registros das Freguesias de São Francisco do Sul e Armação de Itapocoroy (Penha), encontramos africanos das seguintes origens: Angola, Benguela, Cabinda, Camundá, Congo, Guiné, Mina, Moçambique, Mogumbe, Monjolo, Muxicongo e Rebolo.

A Freguesia de Armação de Itapocoroy, desde o início de sua povoação, contou com o trabalho de escravos negros. Os escravos tiveram grande participação na Armação Baleeira. Não na pesca, mas em terra trabalhando na manufatura dos produtos extraídos da baleia. José Ignacio Borges, feitor da Armação Baleeira, foi também proprietário de muitos escravos, e teve muitos descendentes que mudaram-se para o Itaperiú.



2.1 A escravidão nas Freguesias de São Francisco, do Paraty e de Barra Velha

Ainda são poucos os documentos encontrados que afirmam a existência da escravidão em terras itaperiuenses, principalmente pelo fato do seu povoamento ainda ser pequeno na época de sua existência. Sendo que a escravidão foi abolida no dia 13 de maio de 1888 e ainda antes disso, a Lei do Ventre Livre libertou os filhos de mulher escrava que nasceram a partir de 1871. Entretanto, há inúmeros registros de escravidão na Freguesia de Barra Velha, à qual a localidade do Itaperiú pertencia, além de registros e relatos da presença de descendentes de escravos na localidade do Itaperiú.

Sabe-se também que muitos dos primeiros povoadores do Itaperiú eram descendentes de senhores de escravos, como é o caso das famílias Bernardes, Borba Coelho, Borges, Coelho da Rocha, Pereira, Soares da Costa, entre muitas outras.

Um dos primeiros registros de escravidão em Barra Velha data do ano 1792, quando no dia 28 de março, faleceu o escravo Laureano, de apenas dois anos e dois meses, filho da escrava Anna, de propriedade de Domingos Dias Peres, morador na Barra Velha, e foi sepultado em Armação de Itapocoroy, em Penha. Domingos Dias Peres também teve a escrava Maria, mulata, que faleceu no dia 18 de junho de 1809, de morte repentina, com cerca de 40 anos, e foi sepultada no cemitério da Lagoa de Barra Velha.

Em 1840 a população de Barra Velha era constituída por cerca de 400 habitantes, destes, 300 eram livres e 100 eram escravos, o que representa 25% da população. Nesta contagem, a localidade de Barra Velha foi separada de São Francisco, apesar de fazer parte daquele município. Entretanto, São Francisco possuía um percentual muito semelhante, de 4.802 habitantes, 1.302 eram escravos. Comparado aos dados de 1810, houve um grande aumento da população escrava, quando a Vila de São Francisco e seu termo possuíam apenas 13% da população escrava. Eram 4.165 habitantes livres e apenas 623 escravos.


Quadro da população escrava na região
Ano
São Francisco
Paraty
Barra Velha
População total
População escrava
População total
População escrava
População total
População escrava
1810
4.788
623




1840
5.202
1.402


400
100
1856
13.444
2.736
3.786
1.119


1872
13.366
1.583
2.753

2.888
216
1883

1.205




1884

779

253


1886

527

345


1887

385

305


* A população de São Francisco inclui a população de Paraty e Barra Velha até o ano de 1872.
** A diminuição da população de São Francisco no ano de 1872 ocorre por conta da exclusão de Joinville do seu território, que naquele ano possuía uma população de 7.671 pessoas, sendo apenas 96 escravos. 
Fonte: Adaptado de PIAZZA (1972)

Entre os fatores que contribuíram para as grandes alterações no número de escravos, além da migração, também estão as alforrias e as taxas de natalidades e mortalidades. No ano de 1860, na Paróquia de Nossa Senhora da Graça, em São Francisco do Sul, foram registrados 110 batismos de escravos e 81 óbitos. No mesmo período também foi registrado um casamento, fato raro de acontecer entre escravos.

Os batismos na Freguesia de Barra Velha começaram a ser registrados no ano de 1862, sendo que o primeiro registro é o batizado de uma escrava. Todos eram registrados em um mesmo livro, escravos, ou não. Neste primeiro livro, de 1862 a 1872, consta o batismo de 35 escravos.

A partir de 1871, com a Lei do Ventre Livre, conforme a exigência do Império, a igreja católica deveria ter um livro exclusivamente para o registro de nascimentos e óbitos dos filhos de escravas nascidos após a data em que a Lei entrou em vigência, 28 de setembro de 1871.

Na primeira página do livro de batismos dos filhos das escravas da Freguesia de Barra Velha consta fixado um impresso com o texto da Lei do Ventre Livre.

Lei nº 2040 de 28 de setembro de 1871 fixada na contra-capa do livro de registros de batismos da igreja católica de Barra Velha

O livro foi enviado pelo Governo do Estado de Santa Catarina no dia 23 de dezembro de 1871 e em seu termo de abertura consta a assinatura do Presidente da Província de Santa Catarina da época, Joaquim Bandeira de Gouveia.

A cor da pele era uma característica sempre presente nesses registros. Na época da escravidão os escravos raramente se casavam, as escravas tinham seus filhos solteiras e o pai não os assumia. Como acontecia frequentemente do pai ser branco, muitos dos filhos das escravas nasciam mulatos, constando nos registros como pardos. Com o aumento da miscigenação, apesar de ocorrer com uma probabilidade mais baixa, também acontecia dos bebês nascerem brancos.

O livro de batismos de filhos de escravas de Barra Velha consta com registros feitos de 1872 a 1887, tendo cessado os registros com o fim da escravidão. De novembro de 1876 até fevereiro de 1882 a paróquia de Barra Velha ficou sob a jurisdição paroquial do Padre João Domingos Alves Veiga, vigário da Freguesia de Penha e durante esse período não foi feito nenhum registro de batismo naquele livro, pois ele passou a efetuar os registros da Freguesia de Barra Velha nos livros da Freguesia de Penha.

Dentro de todo o período em que o livro foi utilizado foram registrados o batismo de 66 crianças nascidas sob a Lei do Ventre Livre. As crianças eram filhas de 47 diferentes escravas e as escravas de 43 diferentes proprietários. Dos 66 registros, apenas em 4 consta o nome do pai, todos escravos, sendo que dois deles são filhos do mesmo casal de escravos. Dentre esses registros, em 24 foram citados a cor da mãe, sendo que 12 eram pardas, 10 eram pretas e 2 foram descritas como crioulas. Já entre os filhos, consta a cor de 47 deles, sendo 26 pardos, 18 pretos e 3 descritos como brancos. Dos proprietários, 14 constam que são moradores do Itapocú, ou do Sertão do Itapocú, uma do Perequê e um da Itajuba, os outros não constam a localidade onde moram, apenas que são moradores da Freguesia de Barra Velha.

Com a Lei do Ventre Livre o governo também exigiu que se efetuasse uma matrícula especial dos escravos. No município de São Francisco, à qual pertencia São João do Itaperiú, durante o período de 29 de abril de 1872 a 30 de setembro do mesmo ano, foram matriculados 1.574 escravos. Na tabela abaixo temos as características destes:

Quadro de escravos matriculados em São Francisco no ano de 1872
Sexo
Masculino
792
1.574
Feminino
782
Idade
Até 1 ano
3
De 1 a 7 anos
278
De 7 a 14 anos
325
De 14 a 21 anos
275
De 21 a 40 anos
436
De 40 a 50 anos
146
De 50 a 60 anos
80
Maiores de 60 anos
31
Estado civil
Solteiros
1.535
Casados
31
Viúvos
8
Profissão
Agrícola
1.446
Artista
84
Jornalista
44
Residência
Urbana
132
Rural
1.442
Fonte: PIAZZA (1972).

No ano de 1872, com o Recenseamento Geral do Império, coletou-se muitas informações sobre a população livre e escrava da Freguesia de Barra Velha. Na tabela abaixo temos as características dos escravos recenseados da Freguesia de Barra Velha:

Quadro de escravos da Freguesia de Barra Velha em 1872
Categoria
Descrição
Homens
Mulheres
Total
Sexo
Sexo
117
99
216
Estado civil
Solteiros
115
99
Casados
2
0
Viúvos
0
0
Raça
Pardos
33
32
Pretos
84
67
Religião
Católicos
117
99
Acatólicos
0
0
Nacionalidade
Brasileiros
106
97
Estrangeiros (africanos)
11
2
Instrução
Sabem ler e escrever
0
0
Analfabetos
117
99
Fonte: Recenseamento Geral do Império (1972).

De uma população de 2.888 habitantes, 216 eram escravos. Todos eram católicos, pois nenhum dos escravos podia praticar outra religião. Nenhum possuía algum tipo de deficiência física ou mental. Nenhum deles sabia ler e escrever, assim como nenhum, com idade entre 6 e 15 anos, frequentava a escola.

Quadro de raças da população livre e escrava da Freguesia de Barra Velha em 1872
Raças
Livres
Escravos
Total
Homens
Mulheres
Total
Homens
Mulheres
Total
Brancos
918
866
1.784


0
1.784
Pardos
321
321
642
33
32
65
707
Pretos
12
19
31
84
67
151
182
Caboclos
115
100
215


0
215
Total
1.366
1.306
2.672
117
99
216
2.888
Fonte: Recenseamento Geral do Império (1972).

No ano de 1872, já se observa a miscigenação de raças na Freguesia de Barra Velha, com o grande número de pardos e caboclos. Dos escravos, 65 eram pardos e 151 eram negros. 

Quanto a idade dos escravos, pode-se observar na tabela a seguir.

 Quadro de idades dos escravos da Freguesia de Barra Velha em 1872
Homens
Mulheres
Total
Idade
Pardos
Pretos
Total
Pardos
Pretos
Total
Até 1 ano


0

0
0
1 ano

1
1

0
1
2 anos

3
3

2
2
5
3 anos

1
1

1
1
2
4 anos
3
2
5
2
2
7
5 anos
2

2

6
6
8
6 a 10 anos
4
7
11
5
7
12
23
11 a 15 anos
4
10
14
5
12
17
31
16 a 20 anos
3
10
13
2
6
8
21
21 a 25 anos
4
12
16
3
8
11
27
26 a 30 anos
4
8
12
5
9
14
26
31 a 40 anos
2
12
14
3
9
12
26
41 a 50 anos
2
12
14
4
4
8
22
51 a 60 anos

5
5

2
2
7
61 a 70 anos
1
1
2

0
2
71 a 80 anos


0

0
0
81 a 90 anos


0

0
0
91 a 100 anos


0

0
0
Total
29
84
113
30
66
96
209
Fonte: Recenseamento Geral do Império (1972).

Com a Lei do Ventre Livre, todo filho de mãe escrava, nascido a partir de 28 de setembro de 1871, era considerado livre, o que fez com que não houvessem mais escravos menores de 1 ano no ano de 1872. 

Quadro de profissões dos escravos da Freguesia de Barra Velha em 1872
Profissão
Homens
Mulheres
Total
Lavradores
81
23
104
Pescadores
3

3
Criados e jornaleiros
1

1
Serviços domésticos

39
39
Sem profissão
32
37
69
Total
117
99
216
Fonte: Recenseamento Geral do Império (1972).

Observa-se que a grande maioria dos escravos homens eram utilizados para trabalhos na lavoura e quanto as mulheres, a maioria no trabalho doméstico. Os escravos classificados como "criados e jornaleiros", eram escravos de ganho, que exerciam trabalhos que recebia alguma remuneração. Já os classificados como "sem profissão" são as crianças.

Em 1872, a Freguesia de Barra Velha possuía 17 moradores nascidos na África, sendo essa a nacionalidade da maioria dos estrangeiros residentes na localidade, que possuía ao todo 24 estrangeiros, sendo os outros moradores, três alemães, um italiano e três portugueses

Quadro de africanos residentes na Freguesia de Barra Velha em 1872
Africanos
Estado civil
Escravos
Livres
Total
Homens
Solteiros
10
4
14
Casados
1

1
Viúvos


Mulheres
Solteiras
2

2
Casadas


Viúvas


Total
13
4
17
Fonte: Recenseamento Geral do Império (1972).

Após 1871, um outro fator significativo na redução do número de escravos foi a alforria dos mesmos, que começou a ocorrer com mais frequência, ou pela concessão de liberdade feita pelos próprios donos, ou o próprio escravo conseguia comprar sua liberdade, ou através da compra de liberdade por conta do fundo instituído pela Lei do Ventre Livre.

Com o fim da escravidão, os escravos, que até então, não tinham sobrenome, apenas nomes próprios, passaram a usar sobrenomes. Alguns passaram a usar o sobrenome dos seus ex-proprietários, outros os últimos nomes compostos religiosos que já usavam, como, da Conceição, de Jesus, ou dos Santos; outros passaram a usar o nome da mãe, ou das avós como sobrenome, como Rosa, ou alguns que ganharam uma versão masculina, como Ignacio, Jacinto; ou ainda passaram a usar o sobrenome Silva, o que o tornou muito popular no país.



3. Os afrodescendentes no Itaperiú

Há relatos de que a família Bernardes e a família Veiga se utilizaram de mão de obra escrava na preparação de suas propriedades no Itaperiú. Após a libertação, continuaram mantendo os ex-escravos e os descendentes dos escravos como seus empregados, assim como outras famílias.

Na região, havia uma comunidade de negros no Itapocú, uma espécie de quilombo, e para lá se mudaram muitos dos negros do Itaperiú, tanto no século XIX, como ainda no início do século XX.

No Itapocú, apesar de conviveram lado a lado em muitas situações, até meados do século XX, negros e brancos eram separados. Havia a igreja dos pretos, como era chamada, e ao lado, a igreja dos brancos. As festas de ambas as comunidades eram frequentadas apenas por pessoas com a cor de pele correspondente a da comunidade.

Apesar da condição em que viveram os negros sob o regime de escravidão a qual eram submetidos, verificou-se inúmeros casos de amizade entre negros e brancos, que se perpetuaram por anos, principalmente entre a família dos antigos senhores dos escravos e seus descendentes. Algumas vezes esse laço de amizade se dava pelo fato dos negros serem descendentes de seu senhor, ou dos filhos deste. Mas pouco, ou nada, se comentava sobre isso.

Os negros que permaneceram no Itaperiú continuaram trabalhando para as famílias com quem já estavam, nas mesmas funções. Já em meados do século XX, ainda na década de 40, os negros já se destacavam no Itaperiú em outras profissões, como professores e comerciantes.

Segundo o Recenseamento de 1950, a população de Araquari era de 16.487 habitantes, destes 15.436 eram brancos, 3 pardos, 977 pretos e 71 pessoas não declararam a cor.

Conforme o censo do IBGE de 2010, apenas 34 pessoas da cidade de São João do Itaperiú se declararam pretas, o que representa menos de 1% da população, já 117 pessoas se declararam pardas. Entretanto, não há informação se algumas destas pessoas são descendentes de antigos moradores do Itaperiú.



3.1 Ex-escravos e seus descendentes que moraram no Itaperiú


3.1.1 Escravos de Fructuoso Soares da Costa

Fructuoso Soares da Costa, morador da Freguesia de Barra Velha, teve muitos escravos, entre eles a escrava Eva Catharina, natural de São José, que teve muitos filhos, entre eles: Gregorio, João Baptista, Manoela, Justa, Rita e Felippe. Eva recebeu sua alforria antes de 14 de junho de 1887 e faleceu após 1893.

Gregorio Jacintho de Borba nasceu escravo, por volta de 1842, em Camboriú. Casou com Henriqueta Rosa de Jesus, ou Henriqueta Caetana, antes da lei civil, na Igreja Matriz da Freguesia de Itapocú. Henriqueta nasceu por volta de 1869, em Barra Velha, filha de Vergilio Caetano e Rosa Maria de Jesus, ou de Lima. Moraram no Itinga em 1889, 1891 e 1892. Tiveram as filhas: Maria Rosa de Livina (Maria Henriqueta) (*31/08/1889, Itinga, Barra Velha); Rosa Henriqueta de Jesus (*17/01/1891, Itinga, Barra Velha); e Christina Henriqueta de Borba (*06/05/1892, Itinga, Barra Velha). Gregorio faleceu no dia 14/03/1937, às 11 horas, em Santa Luzia. Foi sepultado em Santo Antonio. Henriqueta faleceu no dia 28/06/1949, às 18 e meia, em um domicílio na Vila de Barra Velha. Foi sepultada no cemitério da Vila de Barra Velha. No registro de óbito dos dois diz que eles eram de cor branca.

João Baptista nasceu por volta de 1858, em Camboriú. Foi alfabetizado. Passou a usar o sobrenome João Baptista da Silva, ou também João Baptista Soares. Casou com Luzia Alexandrina de Jesus, nascida por volta de 1868, em Barra Velha, filha de Alexandrina Maria de Jesus, natural de Porto Bello, já falecida. O casamento ocorreu dia 03/06/1893, às duas horas, na residência do Juiz de Paz Emilio Carlos Walter. Foram testemunhas, Julio Alonço, 58 anos, natural da Espanha, pedreiro; Antonio Damazio da Lus, 27 anos, lavrador; e Maria Esteva do Rosario, 31 anos, natural de São Francisco; todos da Freguesia de Barra Velha. Também estavam presentes, Serafim Lucas Machado e Antonio João de Maçaneiro. A contraente já possui uma filha de pai desconhecido e não do presente marido, nascida em 19 de março de 1893, que se batizará com o nome de Maria José. Tiveram os filhos: Paulina (*10/01/1895, Itaperiú); e Antonio (*~1897).

Manoela teve os filhos Marcos, Raphael, Thomas e José, todos nascidos livres. Marcos, pardo, nasceu no dia 25 de abril de 1876 e foi batizado no dia 15 de maio do mesmo ano, em Barra Velha. Foram padrinhos, Fructuozo João Jose Vieira e Francisca Roza da Silva. Já Raphael, pardo, nasceu no dia 24 de junho de 1883 e foi batizado no dia 06 de agosto do mesmo ano, em Barra Velha. Foram padrinhos, Gregorio e Rita, escravos de Fructuoso. Thomas nasceu dia 16 de janeiro de 1887 e foi batizado em 14 de junho do mesmo ano, em Barra Velha. Foram padrinhos, Gregorio Jacintho de Borba, escravo de Fructuoso e Nossa Senhora da Conceição. José nasceu no dia 27 de abril de 1888 e foi batizado dia 11 de junho do mesmo ano, em Barra Velha. Foram padrinhos, João Baptista da Silva e Justa Bernarda de Jesus. Após a abolição Manuela passou a se chamar Manoela Catharina de Jesus, ou Manoella Soares. Viveu com Julio Alonso (*~1853, Espanha), filho de João Vicente e Angela Alonso, naturais da Espanha. Julio era artista, pedreiro, era alfabetizado e se assinava: "Julio Alonso". Em 1888, Julio foi padrinho de batismo de Henrique, neto de Fructuoso Soares da Costa. Com Julio, Manoella teve os seguintes filhos: Maria, nascida em 10/03/1890, no Itapocú; e Maria, nascida e falecida no ato do parto, dia 21/04/1892, no Itapocú.

Justa teve as filhas: Isabel, Maria e Leontina. Isabel, nascida livre no dia 02 de setembro de 1885 e batizada no dia 24 de novembro do mesmo ano, em Barra Velha. Foram padrinhos, Emygdio Joaquim da Silveira e Nossa Senhora da Conceição. Maria nascida em 25/10/1890, no Escalvado, em Barra Velha. Leontina, nascida em 24/08/1893, no Itapocú, em Barra Velha.

Rita, nasceu no dia 10 de outubro de 1863, foi batizada no dia 21 de novembro do mesmo ano, em Barra Velha. Foram seus padrinhos, Agostinho Carvalho Bueno e Maria Luísa do Nascimento. Rita foi vendida já com mais de 20 anos para Alexandrina Maria Leal, viúva de Lucas José Machado, e teve o filho Manoel, nascido livre, no dia 26 de dezembro de 1886 e batizado no dia 14 de junho de 1887, em Barra Velha. Foram padrinhos, João Baptista da Silva, escravo de Fructuoso e Rita Bernardina de Jesus.

Felippe, mulato, nasceu no dia 10 de junho de 1866 e foi batizado no dia 12 de dezembro do mesmo ano, em Barra Velha. Foram seus padrinhos, Joaquim Jose Pereira e a Invocação de Nossa Senhora da Conceição. Foi alfabetizado. Após sua liberdade, passou a chamar-se Felippe Antonio da Rocha e continuou morando no Itaperiú, onde se casou com Margarida Eulalia da Conceição, também moradora no Itaperiú, filha de Felicia Luiza da Graça, que havia sido escrava de Joaquim José Pereira. O casamento ocorreu no dia 31 de dezembro de 1891, às dez horas da manhã, na residência do Juiz de Paz Onofre Francisco da Rosa. Foram testemunhas, Augusto Julio dos Passos, 32 anos, negociante, em Barra Velha; João Manoel de Aguiar, 26 anos, lavrador, no Itaperiú; Maria Lina dos Reis, 24 anos, lavradora, no Itaperiú. Felippe tinha 25 anos e Margarida, 15 anos. Tanto Fructuoso, quanto Joaquim José Pereira já eram falecidos na ocasião, mas eles continuavam convivendo com a família deles, tanto que também estavam presentes, José Joaquim Pereira, filho de Joaquim. Além de José Feliciano Machado. Felippe morou no Itaperiú e no Itapocú.

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3.1.2 Escravos de Joaquim Jose Pereira

Joaquim Jose Pereira teve uma escrava mulata de nome Felicia que teve três filhos: Antonio, Andre e Margarida. Felicia morava no Itapocú em 1892. Faleceu antes de 1935.

Antonio Pereira de Assumpção, mulato, nasceu escravo no dia 23/03/1864, em Barra Velha. Foi batizado no dia 25/12/1864, em Barra Velha. Foram seus padrinhos, Vicente Gonçalves da Luz e Maria Roza de Jesus. Antonio foi declarado livre por seus senhores, Joaquim e Joaquina, na pia batismal, sendo testemunhas Miguel Soares da Rocha e Lourenço Antonio de Souza Rachadel e o Padre Manoel Julio de Carvalho. Morou no Itaperiú. Casou com Vicentina Rosa de Jesus, nascida por volta de 1872, em Barra Velha, filha de Ponciano José da Roza e Joaquina Roza de Jesusno dia 15/02/1890, na Igreja Matriz de Penha e no cartório em Barra Velha. Moravam no Itaperiú em 1892, no Escalvado em 1924 e no Salto do Itapocú. Tiveram os seguintes filhos: Fabio Pereira Roza, nascido no dia 27/05/1892, Itaperiú; Cassimiro Eugenio Pereira, nascido por volta de 1896; Margarida Maria Vicentina, nascida por volta de 1898; Maria Vicentina Pereira, nascida no dia 10/09/1900; José Antonio Pereira, nascido por volta de 1900; João Margarido Pereira, nascido no dia 10/06/1907, Barra Velha; Ambrozina, nascida por volta de 1908; Antonio, nascido por volta de 1912. Vicentina faleceu no dia 29/10/1923, em Barra Velha, de nevralgia e foi sepultada no Itapocú. Antonio casou pela segunda vez com Francisca Maria da Silveira, moradora no Salto do Itapocú, nascida no dia 08/06/1891, filha de Manoel Luiz da Luz e Maria Francisca do Rosario, no dia 30/03/1935, no cartório de Barra Velha. Antonio faleceu após 1935.

Andre Pereira da Silva nasceu escravo em dezembro de 1866. Foi batizado no dia 12/12/1866, em Barra Velha. Foram seus padrinhos, Fructuoso Soares da Costa e Maria Jose do Espirito Santo, solteira. Não sabia escrever. Casou com Maria Angelina da Conceição (ou de Jesus), filha de Angelino Paulo de Moura e Maria Angelina (ou Maria Jacintha de Jesus), no lugar Serro, em Barra Velha, antes de 1891. Moravam  no Itapocú em 1891, no Itinga em 1903, na Itajuba em 1904 e 1905. Tiveram os filhos: Felesbina Maria de Jesus, nascida por volta de 1884; Francelina Maria de Jesus, nascida por volta de 1885; Maria Amazilia da Conceição, nascida no dia 08/06/1885; e Ananias, nascida no dia 31/01/1891, no Itapocú. Não consta o nome de André em muitos dos registros dos filhos, provavelmente por ainda não terem formalizado a união na ocasião do nascimento destes. André faleceu após 1903.

Margarida Eulalia da Conceição, ou Margarida Felicia dos Santos, parda, nasceu livre, por conta da Lei do Ventre Livre, no dia 12/02/1873. Foi batizada no dia 25/07/1873, em Barra Velha. Foram seus padrinhos, José Felicio de Borba, sobrinho de Joaquina, e Maria Joaquina. Não sabia escrever. Morou no Itaperiú. Casou com Felippe Antonio da Rocha, nascido no dia 10/06/1866, em Barra Velha, morador no Itaperiú, filho de Eva Catharina, escrava que fora de Fructuoso Soares da Costa, no dia 31/12/1891, em Barra Velha. Com a união ela passou a assinar-se Margarida Felicia da Rocha. Moravam no Itapocú em 1892, no Itaperiú em 1894, 1896 e 1909, no Escalvado em 1916 e no Itaperiú em 1927. Tiveram os filhos: Francisco, nascido no dia 09/09/1892, no Itapocú; Eulalia Margarida da Conceição, nascida no dia 23/03/1894, no Itaperiú; Maria, nascida no dia 28/04/1896, no Itaperiú; Itelvina da Rocha, nascida por volta de 1898; e Geraldo Felippe da Rocha, nascida em 12/1903, no Itaperiú. Felipe Antonio da Rocha faleceu com 70 anos no dia 18/10/1936, às 17 horas, no Escalvado, de causa ignorada. Foi sepultado no Cemitério de Itapocú. Faleceu sem testamento e deixou bens a inventariar. Margarida mudou-se para São Francisco do Sul. Ela faleceu entre 1952 e 1969.

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3.1.3 Escravos da Família Borges


Manoel Ignacio Borges teve uma escrava de nome Rosa, que teve uma filha chamada Marcellina, nascida no dia 10 de junho de 1831 e que foi batizada no dia 10 de julho de 1831, em Itapocoroy. Francisca, escrava do tenente José Ignácio Borges, irmão de Manoel, foi a madrinha de Marcellina.

No Itapocú, após a morte de Manoel, sabe-se que sua mulher Francisca teve muitos escravos, entre eles os escravos: Gregorio e a escrava Thereza Luzia, mãe dos escravos João Antonio, Sabina e Anna.

Sabe-se que Januario Ignacio Borges, filho de Manoel teve dois escravos: Albino e João. Albino era filho de Thereza Luzia.

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3.1.4 Escravos da Família Coelho da Rocha

José Coelho da Rocha e sua mulher Maria Francisca tiveram os escravos: Marcelina, Joaquina Francisca e João.

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3.1.5 Escravos de Jeremias José Bernardes

Em 1885, Jeremias José Bernardes, morador de Camboriú, adquiriu terras no Itaperiú, localizadas na região depois denominada Mantiqueira. Jeremias e seus escravos prepararam o terreno, construíram uma casa e uma serraria tocada a água e fizeram pastagens e plantações de milho, feijão, mandioca, cana, entre outros. Com tudo pronto voltou à Camboriú para buscar sua família. 

Ao mudar-se com sua família, em uma comitiva com suas carroças e sua mudança, em 1888, ocorreu a libertação dos escravos. Ao ficarem sabendo que os escravos estavam libertos, Jeremias comunicou aos escravos que os que quisessem permanecer, poderiam continuar trabalhando com ele. Quatro deles continuaram com a família, os outros foram embora. Gregória, Domingas e Miguel Roque, três irmãos, filhos da escrava Anselma Romana, para não se arriscarem em um futuro incerto, preferiram permanecer com a família. Gregória tinha um filho chamado Jovencio, na ocasião com apenas um ano, nascido em maio de 1887, que também permaneceu com a família.

Anselma Romana era escrava de Jeremias e após a libertação continuou morando em Camboriú. Gregória era escrava, já Domingas, de apenas 11 anos, Miguel Roque, de 7 anos e Jovencio, nasceram livres, sob a Lei do Ventre Livre. Os quatro permaneceram trabalhando com a família Bernardes por muito anos.




Referências

- BERNARDES, Elis de Sisti. Família Bernardes.
- IGREJA CATÓLICA. Livros de registros da igreja católica.
- PIAZZA, Walter Fernando. A escravidão negra numa província periférica. Florianópolis: Garapuvu, 1999.
- ___. O escravo numa economia minifundiária. Santa Catarina: UDESC, 1972.
- SANTA CATARINA. Recenseamento geral do Império. 1872.
- SILVA, José Bento Rosa da. (Inúmeros artigos e textos)
- TOMIO, Telmo. Genealogia e História.