Família Walter (Wachter)


Por Elis de Sisti Bernardes


Ainda no século XIX, antes de 1857, Carlos Wachter já estava estabelecido no Sertão do Itapocú, na Freguesia de Barra Velha.

Carlos Walter, ou Karl Wachter, era natural de Römerstadt, na Áustria, ou de Elberfeld, na Prússia, onde nasceu por volta de 1843, filho de Johann Wachter (João Wachter) e Johanna Marie Brögelmann (Joana Maria), da nobreza austríaca do século XVII.

De família católica, seu pai era relojoeiro e sua mãe, protestante. Viajaram na 1ª classe, dentre os 204 colonos expedidos de Hamburgo no dia 06 de maio de 1854, na barca inglesa “Linda”, para São Francisco do Sul. Atracaram no dia 23 de junho no Porto de São Francisco, sendo que nos dias seguintes ocorreu o desembarque dos colonos. Chegaram na Colônia Dona Francisca dentre outros 116 colonos.

Sua mãe faleceu antes de 1863.

Os moradores do Itapocu tiveram conhecimento sobre o jovem forasteiro, de suas habilidades nos ofícios de ferreiro e marceneiro. Francisco Onofre da Rosa decidiu empregá-lo, entre estaleiro no seu porto, e de dois barcos (escunas) e de várias embarcações ribeirinhas. O porto, do velho Chico Onofre da Rosa em frente à casa comercial, e de seus prédios para depósito, engenho e casa de escravos, recebia embarcações a que a preamar permitia calado, permitindo trânsito de escuna até de dois mastros sem receio de encalhes. Os produtos da região consistiam de aguardente, açúcar grosso, rapadura, farinha de mandioca, milho, feijão, amendoim e peles de caça eram ali embarcados. A partir de 1877, o porto do Chico passou a ser usado pelos canoeiros a serviço do Coronel Jourdan para o transporte de aparelhos industriais, máquinas destinadas ao seu empreendimento em formação em sua fazenda da “Colônia Jaraguá”.

Inicialmente, o convívio entre os moradores era embaraçoso, devido ao seu idioma, porém no decorrer dos tempos, falava desembaraçadamente o idioma nacional. A partir de então, passou a ser chamado por todos pelo sobrenome de “Walter”, de pronúncia mais fácil entre os descendentes de açorianos. Ficou também conhecido como Carlos Alemão.

Trazia boa soma de moeda austríaca (ouro) e adquiriu uma sesmaria de terra, à margem do volumoso Rio Itapocu, tornando-se afamado nos artesanatos com precisão.

Carlos Walter casou com Maria Thomasia Januaria da Conceição, filha de Thomas Antônio de Lemos e Joanna Rosa de JesusMaria Thomasia nasceu no dia 21 de março de 1830 e foi batizada no dia 27 do mesmo mês, na Capela de Armação de Itapocorói, pelo Frei Gregório das Dores. Foram seus padrinhos: João e Bárbara Ignacia. Seu pai, Thomas, era natural de Guaratuba, no Paraná, e sua mãe era natural de Armação de Itapocorói.

No Itapocu, Carlos foi um conceituado lavrador, chefe de numerosa família. Entre 1866 e 1887, construiu sua casa e um engenho de farinha de mandioca.

Por volta de 1868 Carlos requereu ao Estado a compra de um terreno no Itaperiú, que estremava, pelo Nordeste com os herdeiros do Capitão Alberto e Thomas Antonio, pelo Sul com Florencio Pereira, pelo Leste com o próprio Walter e Geraldino Soares da Costa, e pelo Oeste com o ribeirão Ai. Este terreno havia sido arrendado para Pedro da Cunha, que nele construiu benfeitorias e fez lavouras. Em março de 1882, Carlos ainda não havia pago o terreno.

Em 1882 ocorreu um incêndio no engenho de farinha de Carlos. Em 1883, Carlos pediu ao Estado para comprar um lote de terras no lugar denominado Morro da Boa Vista, ao Sul do rio Itapocu, com 500 braças de frente e 600 de fundo.

Carlos era amigo e compadre do Coronel Carlos Jourdan e a família do amigo vinha passar temporadas em sua casa, onde inclusive nasceu a filha do amigo, Helena Constança, em 1883.

Carlos faleceu no dia 08 de novembro de 1884, em sua propriedade, no Itapocu, vítima de um acidente em seu engenho de farinha. Estava a dirigir o trabalho de fabricação de farinha de mandioca e quando estava junto a maquina, soltou-se repentinamente o braço da prensa, acertando-lhe a nuca e lhe causando morte instantânea.

Carlos teve seus bens inventariados por sua esposa Maria Thomasia em 1885. No seu inventário, consta que deixou os escravos: Alexandre, Luiza e Antonio. Deixou também o iate "Neptuno", avaliado por um conto e quinhentos mil réis, além de uma canoa de figueira com dois palmos e meio de boca. De gado, deixou uma junta de bois carreiros velhos, uma outra, uma vaca velha e pequena, mais um cavalo azulego novo. Dos bens móveis, destacam-se: um relógio de prata de algibeira, um par de esporas de prata com roseta de ferro, pesando 780 gramas, nove colheres de prata para sopa, seis colheres de prata para chá, uma mesa de araribá e doze cadeiras empalhadas etc. A casa da residência no sítio da vivenda, na Freguesia do Itapocu, tinha sótão e estava edificada sobre alicerces de pedra e cal, com paredes de tijolos, coberta de telhas, medindo 9,40m por 11,70m, tendo na frente duas janelas e uma porta, no eitão do lado oeste duas janelas e duas portas, com todas as janelas envidraçadas, sala de visitas, dois quartos, sala de jantar, despensa, no pavimento térreo, mais uma saleta no pavimento superior. Tal residência, sofisticada para os padrões da época naquele lugar, foi avaliada em dois contos de réis. Deixou, outrossim, uma casa de pau-a-pique, ao lado da de tijolos, barreada e assoalhada, que deve ter sido a primeira do casal, ao lado da que servia de ferraria. Essas edificações estavam situadas nas 143 braças de terras de sua propriedade, que faziam fundos no Ribeirão do Cardoso, dividindo-se, pela frente, com as terras dos moradores da beira do Rio Itapocu e, pelo Sul, com terras dos herdeiros do Major Manoel Antonio Vieira, e, ainda, pelo leste, com as de Bernardino Antonio Caetano, avaliadas em torno de um conto e quatrocentos e trinta mil réis. Deixou, igualmente, 189 braças de terras de frente no Sertão de Dentro no Itapocu, com fundos até o Ribeirão do Cardoso, estremando, pelo Sul, com terras de Bernardino Antonio Caetano e, pelo Norte com terras dos herdeiros órfãos da defunta Rosa Inacia de Jesus, e frente com terras devolutas, estimadas em um conto e trezentos o oito mil réis; mais 80 braças de frente no lugar Lagoinha, no Itapocu, com fundos até as terras dos moradores do Sertão, fazendo frente no Rio Itapocu e estremando, pelo Sul, com terras de João Antonio Pereira e, pelo Norte, com terras de Bento de Sousa, avaliadas em 160 mil réis; mais 69 braças de terras no lugar denominado "Ai", na margem direita do Rio Itapocu, fazendo fundos com terras devolutas, estremando, pelo Leste, com terras dos herdeiros do Major Manoel Antonio Vieira, e, pelo Oeste, com terras dos herdeiros do finado Francisco Luiz Fagundes, estimadas em 464 mil réis; mais 50 braças com fundos no Ribeirão Cardoso, estremando, pelo Norte, com terras de Laurentino Francisco da Rosa e, pelo Sul, com terras de Manoel Alberto da Silveira. Deixou também diversas roças de mandioca.

Maria Thomasia faleceu após 1902.



Filhos:




- Eduardo Carlos Walter (*~1856, Barra Velha +06/03/1910, Hospital de Joinville, de carcinoma Sep: Joinville). Foi marceneiro.
Casou com Beatriz Christina Maria Pereira (*~1869 Bat. São Francisco +Antes 1910), filha natural de Thomasia Maria da Conceição, no dia 22/07/1886, em Paraty. Ele trabalhou nas oficinas da Cia. Paulista de Estradas de Ferro. Moraram em Campinas, SP (1885), em Rio Negro, PR (1892) e no Itapocu.
Filhos:

- Juvenal Pereira Walter (22/06/1889). Fez parte do Conselho Municipal de Paraty (Araquari), em 1923 e em 1927-1930. Foi Chefe Escolar e Agente Ferroviário do município de Paraty.

Casou com Maria Borges da Silva, filha de Nazario Caetano da Silva e Hermelina Borges da Silva.
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     - Ivette (*21/12/1923)

- Perseveranda Christina Walter (*~1890 +23/07/1892, Rio Negro, Paraná Sep: Rio Negro)

- Waldemar Pereira Walter (*01/04/1897)
Casou com Joanna Ritta da Conceição (*20/10/1907), filha de Cypriano Hermenegildo de Azevedo e Anna Ritta da Conceição.






- José Maria Wachter (*07/06/1857 Bat. 26/07/1857, Penha Padr: Ponciano Antônio de Lemos e Lucinda Rosa de Jesus +Após 1884). Faleceu solteiro.






- Maria Balbina Walter (*~1860, Barra Velha +06/03/1906, Itapocú)

Casou com Francisco Maria de Faria Machado (*Braga, Portugal +01/09/1891, Rainha, Itapocú, assassinado por João Luiz dos Santos, que lhe devia uma conta, levou dois tiros de revólver e repetidas pancadas na cabeça deferidas com a mesma arma), filho de Sebastião José de Faria Machado e Rosa das Dores de Oliveira, no dia 30/07/1883, na Casa de Missões do Itapocú, pelo Padre João Maria Cybeo. Foram testemunhas: Alusina Vofn e Emilio Carlos Jourdan. Francisco foi naturalizado brasileiro no dia 19/06/1885. Maria foi professora pública na Vila do Paraty (1883-1885), do Itapocú (1890-1895) e de Jaraguá (1896-1899). Teve filhos que moraram no Itaperiú.
Filhos:







Emilio Carlos Walther (Wachter) (*17/08/1863 Bat. 08/12/1863, Barra Velha Padr: Manoel Antônio Vieira e Deolinda Rosa da Graça +05/05/1913 Sep: São Bento do Sul). Sabia escrever. Foi ferreiro (antes de 1889) e negociante, no Itapocú, na Freguesia de Barra Velha. Foi Juiz de Paz na Freguesia de Barra Velha (1893). Mudou-se para São Bento, onde foi funcionário público, nomeado coletor das rendas estaduais e também membro da junta revisora do alistamento, em 1899. No dia 09/07/1901, Emilio recebeu a concessão do Governo do Estado de Santa Catarina, de 1.152,816 m² de terras no Itaperiú, confrontando pelo Norte e pelo Este com terras devolutas, pelo Sul com terras dos herdeiros de Florencio Pereira e pelo Oeste com terras de José de Borba e terras devolutas, no valor de 1:268.097 réis. Foi nomeado 3º escriturário da Subdiretoria de Rendas em 1907, sendo exonerado em 1910 por ter sido nomeado exator federal (1905-1913).
Casou com Maria von Krause (*~1878), filha do cervejeiro Otto Bernardo von Krause e Frederica Maria Ziegler, moradores em São Bento, no dia 12/07/1902, na casa da noiva, pelo cartório de São Bento do Sul. Viúva, casou com Otto Bennack, filho natural de Frederico Brüstelein, em Joinville.
Filhos:

- Renato (*~07/1905 +10/02/1906, afogado no rio São Bento, São Bento do Sul)

- Edith Krause Walter (*São Bento do Sul) 
Casou com Casimiro Silveira (*Lages), filho de Israel Paulo da Silveira e Marcolina Maria dos Prazeres.






- João (*~11/07/1865 Bat. 11/12/1866, Barra Velha Avó paterna já falecida. Padr: Ponciano Antonio de Lemos e sua mulher Barbara Tavares de Miranda +Antes 1885)





- Jeronimo Carlos Walter (*Antes 1869 Padr: Thomas Antonio de Lemos +Entre 1869-1885)





- Vicente Carlos Walter (*Antes 1885 +Antes 1885)


- Alfredo (*04/06/1871 Bat. 10/08/1872, Barra Velha Padr: Francisco Joaquim da Conceição e Maria Joaquina da Conceição +Antes 1885)





- Adolpho Carlos Walter (*~1869, Barra Velha). Sabia escrever.
Casou com Isabel Maria Medeiros (*~1870, Itapocoroy), filha de Victorino Jacintho da Silva e Maria Marcellina Medeiros, naturais de Itapocoroy e moradores no Gravata, em Itajaí (hoje Navegantes), no dia 02/09/1893, na casa do Juiz de Paz Emilio Carlos Walter. Foram testemunhas: Alvim Carlos Walter, 23 anos, lavrador, nesta Freguesia; Lucio Victorino da Silva, 24 anos, lavrador, no Itaperiú; Veneranda Maria Walter, 20 anos, nesta Freguesia. O casamento religioso ocorreu no dia 17/05/1894, na Matriz provisória de Barra Velha. Foram testemunhas: Antonio Dias Patricio e Manoel Henrique de Assis. Moraram no Itapocu.
Filho:

- Jogó Adolfo Walter (*11/12/1895, Itapocu)







- Gustavo Carlos Walter (*~1866, Paraty +07/03/1935, Paraty)
Casou com Deolinda Auta Caetana (*02/10/1878, Paraty Bat. 02/06/1879, Araquari +30/04/1938, Paraty), filha de José Bernardo Caetano e Clarinda Duarte de Souza, no dia 09/08/1902, na casa de Maria Thomasia Walter, no cartório de Itapocú. Foram testemunhas: Emilio Carlos Walter e Tito Livio Venancio da Rosa. Foi nomeado 2º suplente do subdelegado do distrito de Itapocu, em 1915, ficando no cargo até 1930.





- Alvim Carlos Walter (*22/06/1869, Itapocú Bat. 18/02/1871, Joinville Padr: Francisco Joaquim da Rosa e Carlotta Alvina Sohn). Foi nomeado estafeta-condutor da linha dos Correios de São Francisco à União da Vitória, em 1920.
Casou com Aurélia Maria Vieira (*10/05/1874, Joinville Bat. 03/10/1876), filha de Francisco Antonio Vieira (Capitão) (filho do Tenente-Coronel Antônio João Vieira Sênior e Aguida Maria do Rosário) e Maria Emilia da Costa (filha de João Antonio da Costa Cidral e Josefa Alves), no dia 05/05/1900, no Itapocu. Trabalhou nos Correios.





- Veneranda Walter (*27/03/1873, Sertão de Itapocú Bat. 28/03/1874, Joinville Padr: Eduardo Lebon, assistindo no batismo os protestantes Frederico Brüestlein e Elisa Hasse, de Joinville). Foi professora substituta por 3 meses no Itapocú, em 1895.
Casou com Tito Livio Venancio da Rosa. Moraram no Itapocú.
Filhos:

- Maria Amaflor da Rosa (*29/09/1900, Itapocú)
Casou com Henrique Lino da Rocha (*09/02/1872, Barra Velha Bat. Paraty +09/08/1943, Itapocú), filho de Lino Antonio da Rocha e Leonida Joaquina Pereira do Nascimento da Silva, no dia 20/01/1923, na Capela de Itapocú e no Cartório do Itapocú. Moraram no Ribeirão da Corda, no Itapocú.





1883 = Manoel Carlos Walter





Escravos de Carlos Walter:

No seu inventário, feito em 1885, consta que deixou os escravos: Alexandre, Luiza e Antonio.

- Alexandrina Maria de Jesus (+Entre 1866-1893), escrava
Filha:
     - Luzia Alexandrina de Jesus, escrava
     Filha:
          - Maria (*19/03/1893, Itapocú, nascida livre)

Rosa, preta, escrava
Filha:
     - Luiza, preta, escrava
      Filhos:
          - Rita, parda (*15/02/1876, Barra Velha, nascida livre Bat. 12/05/1876. Barra Velha Padr: Polidoro Jose de Sant'Anna e Rita Cesaria dos Santos)
          - Damião (*20/11/1881, Piçarras, nascido livre Bat. 12/11/1882, Penha Padr: O pardo Ricardo, escravo de José Joaquim de Macedo e e preta B..da? Rosa de Jesus, solteira), mestiço






Referências

- CARTÓRIO CIVIL. Livros de registros.

- IGREJA CATÓLICA. Livros de registros.
- NASCIMENTO, Antônio Roberto. Moradores do Rio Itapocú. Blumenau em Cadernos, Blumenau t. XXXIX, n. 04, p. 30-47, abr. 1998.
- SÃO BENTO NO PASSADO.
- SILVA, Emílio da. Jaraguá do Sul: a povoação do Vale do Itapocu. (Segundo Livro do Jaraguá), 1. ed. Jaraguá do Sul: 1975.
- TOMIO, Telmo. Genealogia e história.